PARABÉNS, CEARÁ-MIRIM!!!

PARABÉNS!!! CEARÁ-MIRIM!!!

Mais uma vez o destino levou-me ao encontro do amigo Amarildo... é que folheando alguns arquivos encontrei um folheto de propaganda eleitoral quando meu saudoso amigo foi candidato a vereador.

Esse poema é uma declaração que amor à nossa terra. É um sentimento brotado da mais profunda intimidade, de alguém que soube viver nossa província e, também, soube amá-la até o fim de seus dias. 

VOTE AMARILDO 12611 “CEARÁ-MIRIM ANTES E ACIMA DE TUDO” CEARÁ-MIRIM

Ceará-Mirim dos palmares que se agitam pelos ares sob os clarões matinais... dos ventos que bem conheces, a sinfonia que tece nos Verdes Canaviais.

Ceará-Mirim onde impera uma eterna primavera sob o fulgor de mil sóis... onde no calor dos ninhos gorjeiam mil passarinhos, saudando mil arrebóis.

Terra de praias formosas que das ondas caprichosas a espuma transitória, render-se vem, nas areias, onde encantadas sereias repetem a sua história.

Ceará-Mirim bela terra que heróis deu para a guerra em tempos e campos diversos... heróis  que o sangue verteram, que sempre engrandeceram quando na luta imersos.

Ceará-Mirim dos reluzentes brasões, das antigas tradições dos casarões e vivendas... dos sobrados encardidos que viram amores saídos, dos contos de fadas e lendas.

Ceará-Mirim da fidalguia, nobreza e aristocracia como nunca houve igual... que ouvia de ricas salas cantar o negro, nas senzalas, sua saudade ancestral.

Ceará-Mirim do sonolento “BANGUÊ” que ainda ouço planger como se vivo ainda fosse...de um rico passado antigo que o tempo levou consigo e nunca, nunca mais trouxe.

Ceará-Mirim dos engenhos aonde o franzir dos cenhos fez muito escravo tremer... o castigo dos patrões e no tronco e nos grilhões sob o chicote gemer.

Ceará-Mirim das sinhazinhas coradas, com suas saias bordadas de maravilhosas prendas, com seus cabelos compridos e suntuosos vestidos que eram sonhos e rendas.

Ceará-Mirim ao desfiar das lembranças, eu vejo as tuas crianças comigo seguindo a banda... ouço repicar teus sinos, vejo bailar teus meninos numa eterna ciranda.

Eu ouço ecos na praça, das retretas que eram a graça, da mocidade feliz... vejo as moças nos balcões, vendo passar as procissões nas festas lá da matriz.

Eu vejo o tempo parado, realidade o passado fazer de novo, talvez, sinhá-moça inda me encanta, um negro triste inda canta sua saudade outra vez.

E nesse enlevo risonho, consigo ver no meu sonho teu passado posto nu... mas, nesse belo cortejo, eu vejo tudo, só não vejo outra mais bela que TU.

 

Compare e Vote. “Na grandeza do passado nos inspiramos para construir o futuro”.

 

OS SERTÕES

Os Sertões, livro vingador de Euclides da Cunha

 

O conhecimento da realidade social brasileira passa por uma obra obrigatória, Os Sertões, de Euclides da Cunha. Pontua como um dos principais artífices do debate sobre as diferenças entre o interior e o litoral. Lima Barreto, por exemplo, escrevia e descrevia um Brasil litorâneo, com todas as dicotomias citadinas. Euclides centrou o seu foco no interior, no momento em que as contradições da república recém implantada no Brasil ressaltavam mais gravemente. A Guerra de Canudos não foi o primeiro nem o último episódio de massacre da sociedade afluente sobre uma tentativa de construção de um projeto societário diferente. Mas foi o único descrito em tantos detalhes e com tanta profundeza de detalhes por parte de uma testemunha ocular dos fatos.

Aquela guerra durou um ano e mobilizou mais de 12 mil soldados vindos de 17 estados brasileiros, mais da metade de todo o efetivo distribuídos em 4 expedições militares. Estima-se que morreram mais de 25 mil pessoas, culminando com a destruição total da cidade. Foi, de longe, a maior guerra de guerrilhas da história do Brasil.

 Breve Histórico

Na segunda metade do século XIX houve por um lado uma grave crise no sertão nordestino e, por outro, um estímulo do Vaticano a um revivescer da fé católica, com o apoio institucional da Igreja, vários leigos eram levados a aproximar-se mais da religião e, dentro dos rudimentos de sua capacidade de compreensão, assim como daquela gente simples a quem se dirigiam, a mensagem evangélica era retransmitida.

Neste contexto surgem pregadores os mais diversos, dentre os quais Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, “um gnóstico bronco”, “um heresiarca do século II em plena idade moderna”, “um monstro”, segundo ajuíza Euclides da Cunha em Os Sertões. Um homem do povo que, falando na língua do povo, dizia o que o povo queria e precisava ouvir e fazia o máximo, dentro de sua consciência possível, para suplantar o caos em seu tempo pelo menos até onde chegava sua esfera de influência.

Conglomerando milhares de adeptos ao seu redor, tentando construir um projeto civilizatório diferente, atraiu a si a fúria dos “coronéis” das redondezas privados da mão-de-obra barata que, evidentemente, preferia ir para o Belo Monte com toda a beleza poética e profética que a circundava, a trabalhar para outrem em condições muito pouco satisfatórias. Isso, claro, quando havia serviço no sertão... Bastante ligado às tradições católicas, Antônio Vicente Mendes Maciel protesta e luta contra a república - não que tivesse qualquer contato ou vínculo com os Orleans e Bragança, sua pregação era sebastianista! Com efeito, o orgulhoso positivismo republicano tirou da Igreja uma série de prerrogativas, por exemplo com a criação do casamento civil e a laicização dos cemitérios... Lutando com dificuldade - e conseguindo - melhorias existenciais para sua gente, Antônio Conselheiro acaba por atrair a repressão brutal de uma república incipiente, acaba por atrair a ira fanática daqueles que o julgavam (ou assim faziam crer através de maciça propaganda) “um monarquista disposto a lutar pela restauração do império de Pedro II” quando na verdade, o que ele queria mesmo era ver o império da “lei de Deus”, contra a “lei do Cão” da república velha.

Em nossa história, inúmeros foram os casos de tentativas de implantação de um projeto civilizatório diferente, todos implacavelmente massacrados pela sociedade afluente: Palmares, Colônia Cecília, a República Comunista Cristã dos Guaranis, Canudos, o Contestado... Somente os episódios que tiveram evento em Canudos contaram com a cobertura de alguém do porte genial de Euclides da Cunha, deixando-nos o legado de buscar ter mais compreensão e tolerância para com o diferente.

Fonte: http://www.culturabrasil.pro.br/sertoeslivroving.htm

O ÚLTIMO DISCURSO DO GRANDE DITADOR

O último discurso de “O Grande Ditador” (Charles Chaplim)

            Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.

            Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

            O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos.  A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

            A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.

            Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!

            Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, ms dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

            É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!

            Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

 

CANIBALIDADE, HUMANIDADE

CANIBALIDADE, HUMANIDADE

Autor: Rafael Sobral

 

 

 

Quem somos nós, pra decidir, quem deve ficar ou quem deve partir. Quem somos nós, pra escolher, quem vai ganhar ou quem deve perder. Só somos humanos, matando humanos, extinguindo uma espécie em comum. Só estamos provando a cada vez mais, que somos animais irracionais. Na cadeia alimentar os fracos acabam perdendo. Não vou chorar, pois isso acaba doendo... No fundo do meu coração bate a razão e o sentimento. O que é verdade acaba por se tornar falsidade., Realidade... Acaba de transformar-se em maldade. Vou sobreviver?

 

Canibalidade, Humanidade! Onde é que nós fomos parar? Canibalidade, Humanidade! Na idade vamos regressar! Canibalidade, Humanidade! O que é que estamos fazendo? Canibalidade, Humanidade! Sem perceber... Estamos perdendo.

 

Maldição... Idiota e estúpida evolução, que não adianta de nada. Como são cruéis as pessoas desse mundo... Profundo, imundo... As impurezas voltam para nós... Por que nós somos o resto da raça humana. Se levantar, os outros te fazem cair novamente. E se tentar mais uma vez, eles te matam cruelmente. Que mundo é esse? Eu não queria que fosse assim... Que mundo é esse? Onde quem sofre é quem não tem nada a ver... Vou sobreviver?

 

Canibalidade, Humanidade! Onde é que nós fomos parar? Canibalidade, Humanidade! Na idade vamos regressar! Canibalidade, Humanidade! O que é que estamos fazendo? Canibalidade, Humanidade! Sem perceber... Estamos perdendo.

 

É... Que preconceito amigo... É... Isso é defeito irmão, pois dizem que os negros não têm os mesmos direitos que os brancos na competição. É... Que coisa feia amigo... É... Isso é defeito irmão tem gente que convive normalmente com problemas... como a prostituição! É... Mais que maldade, amigo... É... Isso é defeito irmão seqüestrar uma criancinha junto com sua mamãezinha só para ter dinheiro na mão!! To pagando pra ver... Será que vou sobreviver?

 

Canibalidade, Humanidade! Onde é que nós fomos parar? Canibalidade, Humanidade! Na idade vamos regressar! Canibalidade, Humanidade! O que é que estamos fazendo? Canibalidade, Humanidade! Sem perceber... Estamos perdendo.

 

 

 

 

O CENTENÁRIO DE CEARÁ-MIRIM

 

O CENTENÁRIO

 

Texto do livro: Imagens de Ceará-Mirim, de Nilo Pereira – 3ª Ed. Natal, Fundação José Augusto, 1989.

 

            O Centenário do Ceará-Mirim foi celebrado no dia 30 de julho de 1958. O prefeito Edgar Varela deu-lhe um relevo especial. (...)

            No Diário de Pernambuco, de 27 de julho de 1958, tive oportunidade de focalizar, em entrevista, a significação de tão grande data para Ceará-Mirim, para o Rio Grande do Norte e para toda a Região. Naquele momento, dizia-me em carta Edgar Barbosa, todos os meninos do Ceará-Mirim estariam reunidos. Meninos, dizia bem Edgar, porque todos tínhamos diante da cidade centenária um sentimento de volta à infância. Parecia que tudo voltava: - o que vimos e o que não vimos. O passado integrava-se no presente. O tempo era um só: o tempo emocional, mas criador do que qualquer outro.          Na praça pública, depois do desfile escolar, o que disseram Roberto Varela, Rômulo Wanderley e Luis da Câmara Cascudo, em palanque armado em frente ao vale, era o bastante para que pudéssemos ter a noção do acontecimento, que reunia ali tanta gente, tantas autoridades, vindas de Natal, o povo bom e fiel, no seu testemunho magnífico. 

            A “maré montante dos canaviais” lá estava à vista, com os seus velhos engenhos e suas usinas. Era o espetáculo telúrico no seu esplendor, um século depois, a história viva, palpitante duma civilização característica, que tantos homens ilustres deu à província e ao Estado. O vale parecia estar mais verde para a festa do centenário, como a mostrar que aquela fecundidade eterna era uma sugestão de confiança e de otimismo aos de hoje, que contemplavam a terra prometida.

            A multidão, que celebrava o centenário, dava ao ato festivo a alegoria sagrada da História. As gerações se confundiam na mesma idade interior. O centenário era a coesão social dos tempos, a lição imortal do trabalho, do amor, da cultura, da sensibilidade, da criação.

            Nada poderia abalar na nossa alma o sentimento desse passado que estava vivo como nunca. Tinha de mim mesmo a sensação de pertencer a todas as gerações, desde as mais antigas até às mais novas: tudo se misturava para dar a noção exata da vida na sua dimensão sentimental e humana. Todos falavam: mortos e vivos, velhos e moços, ricos e pobres, homens da cidade e do vale, todos eram um só – o cearamirinense consciente do seu destino, valorizado por um século de existência, de luta, de permanência, de afeto, de exaltação, de confiança, de glórias.

            No Rotary Clube do Ceará-Mirim, proferiu Waldemar de Sá interessante e sugestiva conferência sobre o centenário da cidade, publicada pelo Jornal de Comèrcio do Recife, em sua edição de 5 de agosto de 1958.

            Disse Waldemar de Sá:

“Se fosse poeta, cantaria aqui a canção dolente dos engenhos e o lamento saudoso dos carros de boi, desaparecidos. E lembraria o nosso  rio nas manhãs luminosas, abraçando o vale na generosidade das enchentes e, meu poema, seria então, o do rejuvenescimento da terra, brilhando na beleza dos florões verdes, esse espetáculo do coração e dos olhos, que Ceará-Mirim, depois de cem anos, ainda nos oferece, como se o tempo não tivesse passado e a primeira página do livro de sua vida se abrisse agora, em novas promessas e inéditos milagres.

            Vejo Ceará-Mirim como a viram os seus primeiros habitantes: o vale que se estendia ao longo do horizonte, ainda não desbravado. Os primeiros engenhos, a plantação da cana de açúcar, a faina das moagens, os apitos estridentes, os caminhos ainda indecisos, o rio ainda selvagem, em cujas margens, à sombra altaneira do pau darco em flor, os pássaros cantavam alegremente ao sol da felicidade de viver. E a pequena aldeia surgindo e crescendo, com o seu casario de taipa, formando as primeiras ruas.

            Festas na igreja, missa cantada, procissões, novenas, noites de lua cheia, os lampiões a querosene, os terços do mês de maio, fogueiras de São João, noites de Natal, o ajuntamento de um povo que sempre se caracterizou pelo espírito de religiosidade”.

            Wilson Dantas, no seu artigo intitulado “O Ceará-Mirim  no centenário”, publicado n’A República, de 03 de agosto de 1958, escreve:

            “Tudo lembra, num despertar de emoções, um passado: a austeridade e auto-crítica dos homens que respeitavam os valores positivos, eram a maior garantia para o conceito elevado da terra e da gente.

            Engenhos fumegantes, no econômico e social trabalho da produção e do progresso, animavam os empreendimentos diários.

            No entanto, se sobrepondo ao materialismo econômico, ressaltam a inteligência e o espírito”.

            Cita Wilson Dantas vários dos nomes que fizeram a grandeza do Ceará-Mirim e essa contribuição, oferecida no espaço sociológico da cidade centenária, é absolutamente válida para a História.

            Com razão salienta que o “materialismo” não se sobrepôs à riqueza espiritual que então se criava. Este é, com efeito, um aspecto que deve ser lembrado sempre: onde a terra podia oferecer ao homem todas as sugestões de grandeza e de prosperidade, o espírito floresceu, pairou sobre as águas, num milagre esplêndido de perenidade criadora.

            O centenário de Ceará-Mirim ainda foi prestigiado pelo jornalista e escritor Veríssimo de Melo, que, em comentários para A Republica, na sua seção, tão lida e tão apreciada, registrou o fato em sua especial significação.

            No registro de 30 de julho de 1958 – dia do centenário – dizia Veríssimo de Melo, no mesmo jornal, do nosso velho e naquele dia tão jovem Ceará-Mirim:

            “Centro dos mais importantes do Estado, como produtor de açúcar, o próspero município revive hoje as glórias e as lutas históricas dos seus cem anos de vida econômica, social e política. O júbilo dos cearamirinenses, no dia de hoje, é, portanto dois mais justificados e mais puros. E tenho certeza de que todos os norte-riograndenses participarão direta ou indiretamente desta alegria pelo transcurso do grande acontecimento histórico.

 

ADELLE DE OLIVEIRA

Prefácio do livro organizado por Ciro José Tavares: Álbum de versos antigos de Adelle de Oliveira publicado 2002.

Bom dia, professora!

José Wilson Mendes Melo

            Este livro despertou-me, de início, a saudade de sua doce autora, de quem recebi, na infância dos sete anos, ensinamentos que ainda posso classificar como os primeiros passos na aprendizagem da leitura e da escrita.

            Aquela escola foi o berço oferecido e realmente concedido a recém-nascidos para as primeiras letras e que, sendo transmitidas com o amor e a piedade de santa de uma poetisa, poderiam transformar-se em letras maiúsculas para alguns homens que me enlevam na possibilidade de terem sido meus contemporâneos, ou melhor, por eu ter testemunhado a aprendizagem multiplicadora dos seus talentos e de suas luzes.

            Acontece também que os instrumentos que me eram fornecidos nos estudos que levam ao conhecimento e à comunicação, teriam uma das suas grandes satisfações na leitura futura da obra literária daquela que realizava, na sala de aula tão simples e singela, o seu mais belo poema de intenso carinho à infância, com o agraciado dom divino de informar e de formar para a vida cada um dos seus alunos todos na flor da idade – a designação mais singular e autêntica daquele jardim de infância, em uma cidade nova que não era capital, mas tinha o título, talvez maior, de Rainha do Vale.

            Considero-me, hoje, um privilegiado por haver recebido os primeiros e fundamentais conhecimentos com leite e mel que, naquele Externato Ângelo Varela, daquela Ceará-Mirim dos anos vinte, corriam como sonhados na antiga Terra Prometida.

            Adelle de Oliveira, educadora, foi poetisa. E sua forma de dizer era a que melhor havia no tempo em que viveu, de 1884 a 1969.  Seu verso predileto – no soneto – usou-o com competência e esmero. Metrificava e rimava como o parnasianismo recomendava. Não teve o cinzel de Olavo Bilac, Raimundo Correia ou Vicente Carvalho, nem a inspiração acadêmica que o Romantismo insistiu em viver nela, talvez anacronicamente, e se vestiu à moda reinante porque era mulher e amava. Amava naquele amor que crescia na medida em que não se realizava e terminou imenso, multiplicado no interminável tempo dos que sofrem.

            Seu ambiente de vida: a longa rua em que morava deixava-a no coração da cruz que se formava quando a mesma rua cruzava a linha férrea da Rua Grande. Figurativamente, ela conduzira essa cruz por toda a vida, desde o instante em que seu grande amor se desfez. Daí em diante, somente via encruzilhadas, caminhos que conduziam a nada e que cruzavam com um outro igual; via somente o que tortura o caminhante: tempestades, noites escuras sem alvorada.

            Seus motivos de versejar se renovam a cada dia, a cada entardecer, a cada anoitecer e recomeçavam pelo outro dia triste que lhe seguia, outra tarde nostálgica, outra noite. Assim viveu anos a fio, décadas seguidas, até que, na metade da nona década, deixou a vida que a atormentava para receber, certamente, a compensação prometida pelo sofrimento aceito e vivido sem protesto, apenas com alguns lamentos.

            Seus versos bem que poderiam ter transmitido as belezas de Ceará-Mirim, a bela cidade inclinada, em forma de anfiteatro, para facilitar a contemplação do vale que anuncia um trânsito livre para a paz dos pêndulos amarelos farfalhantes ao vento. Uma mágoa no amor, porém, desviou o foco de suas atenções e de sua aspiração para penumbras, noites prateadas e, quando muito, para alguma manhã radiosa aos olhos dos outros.

            É difícil dizer se foi bom ou ruim para a poesia em si, mas sabemos que foi tormento para a poetisa e foi emoção e beleza tétrica para seus leitores, logo transformados em admiradores incondicionais. Ela soube tirar o mesmo valor dessas outras paisagens e fazer dos raios de luz, surpreendentes e fugazes, um prêmio maior para o bom gosto de dizer e ouvir. Sua poesia é, pois, um momento que se perpetua; uma decepção que gerou desenganos, tédio, desesperança, referida de relance, algumas vezes, como reação da consciência bem formada ao infortúnio persistente.

            Tudo floriu em versos metrificados, rima clara e sonora, determinando a musicalidade suave da expressão do sentimento poético.

            No seu conjunto, há para o leitor atento uma reflexão. A subordinação às regras da poesia antiga – digamos assim para dar a conotação do tempo em que ela brotou -, levou sua autora ao uso de termos às vezes não condizentes com sua simplicidade e com a simplicidade do texto, a ponto de se senti-los forçados e um pouco estranhos; já a metrificação faz o uso excessivo do hífem e a maior distinção entre as sílabas normais das palavras e a sílaba do verso. Tudo isso que tira um pouco da espontaneidade, mas que se considera uma prova de habilidade ou maestria (provada nesse jogo mais complicado das palavras), para revelar, bem claro, o sentimento que o impulsiona. Nisso ela também foi mestra de real valor.

            Por todos esses méritos sobejamente reconhecidos, saúdo a poetisa Adele de Oliveira na sua póstuma entrada, em forma de livro, no mundo das letras, como se fazia antigamente quando ela entrava m classe:

- Todos de pé! Bom dia, professora!

            Se a tarefa de hoje é o seu livro, nós, os solitários sobreviventes do antigo Externato e a multidão dos novos admiradores, vamos ler seus versos para aprender mais uma belíssima lição de amor e ternura.

JULIO SENNA E O MEIO AMBIENTE

JULIO SENNA E O MEIO AMBIENTE

 

            Estamos no século XXI e a preocupação atual com relação ao meio ambiente já era denunciada pelo Engenheiro Julio Senna quando fez o mapeamento em Ceará-Mirim a partir dos anos 1930.

            Ele escreveu a respeito do desmatamento de nossas matas em função do plantio da cana-de-açúcar em seu livro Ceará-Mirim exemplo nacional, publicado em 1976.

            De acordo com as palavras de Senna, a partir da pg 259 de Ceará-Mirim - exemplo nacional – vol. I: seria demasiado infantil isolar a ação estrangeira da devastação das florestas nordestinas. O português monocultor tinha aversão às árvores brasileiras, chamando-as de mato ou ainda pé de pau.

            O português gostava de doce, de açúcar e os frutos encontrados eram azedos e contrários ao seu paladar. Maus frutos, árvores más. O senhor do engenho criou medo do ar, do sereno, da água, do sol, da mata. As casas foram fechadas e ficaram sem árvores próximas.

            Circunstâncias desse jaez, aliadas à cultura empírica das queimadas, ao medo dos bichos do mato, ao receio de tocaia indígena, criaram o ambiente da devastação, que se realizou vertiginosamente.

            O negro africano, exaurido do trabalho escravo, procurando adaptar-se à natureza, fugindo à canga patronal, fez do juazeiro ou do oiti o seu teto, a sua sombra, o seu ponto de descanso. E amou a árvore, poupando-a ao sacrifício da morte. E amou o fruto bravio, incluindo-o na sua dietética.

            Enquanto o português trazia a cabra para ajudar a devastação, o guaxinim estragava o canavial; enquanto o machado derrubava a maçaranduba, o pão-de-galinha matava a cana-de-açúcar; enquanto o cavalo penetrava a floresta para recambiá-la à fornalha do engenho, a varejeira o sangrava abrindo enormes buracos; enquanto o escravo madorrento puxava o carro de boi cheio de lenha, a jararaca lhe abocanhava o pé.

            A luta biológica foi um esforço de Hércules. Venceu o mais forte. Cumpriu-se a lei da seleção natural. Caiu a floresta na sua quase totalidade e surgiram os campos e os canaviais. Foi um bem??? “Dolorosa interrogação!”

            A incúria do monocultor não alcançava o desastre das queimadas. Ignorando até o nome das árvores, considerando a mata casa de bichos, reino de miasmas, não fazia mal que o fogo a devorasse.

            Depois de um ano de cultura era necessário buscar outra terra. Aquela estava usada, não prestava mais. Outra queimada, outra devastação.

            A terra sombreada ficou desnuda e seca. A água evaporou-se. É palpável! E ainda existem cegos que negaceiam o valor das matas!

            O corte de lenha tem assumido tais proporções que espantam ao mais precavido observador.

            A vida municipal tem base no combustível vegetal. Possuindo engenhos para o fabrico de açúcar, quase todos a vapor, é a lenha que move as suas máquinas, hoje em número de 36 e outrora 56.

            Ora, cada engenho gasta, em média-baixa, 2.000 metros cúbicos por safra (anual). Em 1845 já possuía o município 43 engenhos e algumas engenhocas. Calculando o gasto de lenha para 45 banguês, desprezando as engenhocas, dessa data até hoje, temos: 8.370.000 m3 de lenha (oito milhões trezentos e setenta mil metros cúbicos).

            Computando o gasto de 5 caieiras a 6.000 m3, temos para 50 anos: 300.000 m3 de lenha. A Estrada Ferro Central, desde 1908, levou aproximadamente 60.000 m3. Somando temos 8.730.000. Acrescentando a lenha fornecida para olarias, beneficiadoras de algodão (2), usina de iluminação, 124 casas de farinha (fornos), fábrica de doce e destilarias, podemos arredondar, folgadamente, para 9.000.000 m3 de lenha.

            A salvação da floresta tem residido no poder vegetativo da catanduba. Esta árvore, cortada abruptamente, depois de quatro anos, já os rebentos estão capazes de novo corte. Nenhum industrial lembrou-se, até hoje, de replantar a catanduba do arisco potiguar.

            Apesar do grande consumo de madeiras, nunca o assunto obteve os cuidados merecidos da administração municipal.

            O fícus benjamim entrou no município como árvore ornamenta, um pouco mais tarde apareceu como árvore de sombra à porta de algumas fazendas.  O africano, trouxe o dendezeiro (Elais guineensis) e o holandês nos doou a pimenta-do-reino (piper nigra).

            A mungubeira andou pelas ruas da cidade e fugiu... não a encontramos na nossa peregrinação municipal. A sensitiva anda junto com o tira-fogo à beira das estradas do vale. Somente assim puderam escapar ao martírio do machado. Para essas duas plantas não encontramos classificação, ou, melhor, nome científico ou botânico. A sensitiva é uma árvore de 4 a 5 metros de altura e de porte muito elegante.

            Ao jenipapeiro, o senhor de engenho declarou guerra. Alguns exemplares ainda existentes estão ao redor de casas de caboclos. A cajazeira somente escapa ao machado quando serve de estaca para cerca. O imbu-cajá, a imburana e o pinhão-bravo são companheiros da cajazeira do stacame os cercados feudais.

            O catolé, pobre palmeira nacional, está relegado ao esquecimento. Entretanto é uma árvore providencial, que produz um fruto bastante apreciado. O coco do catolé produz óleo d primeira ordem.

            Tatajuba, pau-brasil, cedro, existem alguns exemplares, por milagre. Gulandins, só em Manibu, no baixo-vale do Ceará-Mirim. Aroeiras e oiticicas, quase todas roletadas todos os anos, para a fornalha dos engenhos de açúcar. Ainda assim, os anos, permanecem vivas, rebentando como novos brotos.

            Juruparana, árvore amiga do índio, nem mais um exemplar! A sua lembrança nos vem do nome de uma propriedade existente no arisco do baixo-vale. Oiti-trubá, uma doce recordação. Madeiras de lei, já quase não possui o município. O município foi queimado e o dono da terra, o índio, expulso de sua oca.

            O clamor público contra a extinção das espécies florestais de natureza econômica criou um atmosfera de protesto entre as pessoas de responsabilidade do estado. E desse protesto surgiram as leis de proteção para a carnaubeira, para a oiticica, para a maniçoba e para a mangabeira.

 

            O texto acima foi escrito entre os anos 1930 e 1940. É certo que as leis ambientais existem, no entanto impossível fazê-las “valer”. Em pleno século XXI, somos surpreendidos com verdadeiros crimes ambientais: desmatamento da Mata do Diamante e de outras similares nas ribeiras, queimadas temporárias em períodos de safra da cana, poluição de nossas bacias hidrográficas e, também, devastação das matas ciliares de nossos rios, levando ao desaparecimento as nascentes e olheiros que brotavam em todos os lugares de nosso vale.

            Das árvores descritas por Julio Senna já não existem mais exemplares e analisando os textos sobre fauna e flora em seu livro, verificamos que sobreviveram apenas aqueles seres que circundavam as moradias. Onde estão os animais selvagens de Diamante? As árvores nobres? Os poucos Pau D’arcos que víamos do Patu, são apenas recordações, ou, às vezes, um “Ipê-teimoso” brota na colina que margeia o vale irradiando e colorindo de amarelo ou roxo nossos olhos saudosos.

            Vale a pena uma nova publicação de Ceará-Mirim – exemplo nacional – o livro certamente contribuirá para futuros estudiosos de nossos problemas como foi o grande mestre Julio Gomes de Senna. Espero que o prefeito Antonio Peixoto se sensibilize e reconheça a importância dessa obra para as novas e futuras gerações. Certamente será um valoroso presente àqueles que estudam e amam Ceará-Mirim.

BLOG DE JOÃO ANDRÉ - PAPO 10

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ENTREVISTADO: GIBSON MACHADO.

O PAPO 10 DE HOJE É COM O NOSSO HISTORIADOR GIBSON MACHADO. NA ÍNTEGRA.

01. BLOG – QUEM É GIBSON MACHADO?

            Sou um cearamirinense que saiu de sua cidade desbravando cerrados e florestas em grande parte do território brasileiro e um dia descobriu que a vida o levou para longe, e que voltar é rever a doce paisagem familiar, voltar tinha um significado especial: encontrar a companheira que daria dois anjos de presente: Rafael e Ana Lourdes.

            Atualmente sou professor de arte da rede estadual de ensino em Ceará-Mirim e da rede municipal de ensino na cidade de João Câmara. Tenho buscado registrar a memória de Ceará-Mirim através de alguns garimpos imagéticos e entrevistas com pessoas que fizeram e fazem parte do desenvolvimento sócio-cultural de nossa terra. Sou um sonhador que tem esperança de um dia ver nosso patrimônio histórico e cultural fortalecido e valorizado pela nossa gente.

02. LEITOR – QUE SUGESTÕES VOCÊ DARIA A NOVA ADMINISTRAÇÃO, VISANDO UM INCREMENTO DA CULTURA EM GERAL, DANDO ASSIM UMA NOVA E MAIOR VISIBILIDADE DE NOSSOS VALORES CULTURAIS?

            A equipe do prefeito tem um projeto de cultura a ser executado durante seu governo e a Fundação Nilo Pereira está bem representada, pois tem uma equipe dedicada e preparada. O êxito da equipe de cultura vai depender das condições disponibilizadas e prioridades do executivo.

            Como sugestão para uma política de cultura:

  1. A criação da lei de incentivo à cultura seria um marco importante para a implementação dos projetos culturais;
  2. Criação de um salário vitalício para os Mestres de nossa cultura popular. Eles poderiam repassar seus conhecimentos nas escolas através de oficinas e palestras e, com isso, formariam novos brincantes ou artesãos divulgando e preservando nossas tradições.
  3. Criação de um festival anual de artes contemplando produções de artes visuais, música, teatro e dança.
  4. Promoção de um fórum anual de cultura popular culminando com um encontro de grupos folclóricos tradicionais.
  5. Projeto para edição de livros que poderia ser denominado “Coleção Cearamirinense”, onde seriam publicados anualmente dois livros. Essas publicações poderiam ser monografias de pesquisas sobre Ceará-Mirim realizadas por jovens universitários que têm seus trabalhos arquivados nas bibliotecas dos cursos e outras temáticas selecionadas por uma comissão de cultura. Assim, toda população teria acesso aos trabalhos e estes, seriam fontes bibliográficas para futuros pesquisadores.

 03. LEITOR – GIBSON, EM SEU VALOROSO ESFORÇO PARA O RESGATE DA CULTURA CEARAMIRINENSE REALIZOU EM VÍDEO ALGUMAS ENTREVISTAS E COLHEU DEPOIMENTOS DE PERSONALIDADES E FIGURAS FOLCLÓRICAS DO VALE, REGISTRANDO PARA A POSTERIDADE. QUAIS FORAM OS ENTREVISTADOS E COM QUEM MAIS VOCÊ GOSTARIA DE FAZER ESTE TRABALHO E AINDA NÃO FOI POSSÍVEL?

            Durante 15 anos de pesquisas tenho registrado muitas conversas e dentre elas enfatizarei algumas como Etevaldo Santiago, Tião Oleiro (mestre do Congo), Zé Baracho (embaixador do congo) Maria do Carmo (mestra do Pastoril), Luiz Chico (mestre do Boi de Reis), Severino Roberto (cabocolinhos), Luiz de Julia, José Lemos, Antonio Potengi, Manoel Ubiratan, Roberto Varela, Ruy Pereira Junior, Joaquim Câmara, dentre outros.

            Eu gostaria de fazer registros com todos aqueles que contribuíram e contribuem com desenvolvimento de nossa terra. Infelizmente não temos estrutura para que isso seja realizado satisfatoriamente. O tempo é curto e os recursos são poucos para que possamos fazer uma amostragem mais abrangente. No entanto temos feito o possível para entrevistar o maior número de personalidades. Agendamos algumas entrevistas com personagens que fizeram parte de nossa história, como é o caso do cearamirinense Luis de Américo, o maior vaqueiro do estado nos anos 1940 e 1950 que entrevistei recentemente. Brevemente serão entrevistados Franklim Marinho, Manoel Barbosa, Lucio Lustosa (Som), Dorinha Parteira, Lizete Miranda, Paulo Correia, Belchior (mestre do Bambelô) e outros.

04. LEITOR – SABEMOS QUE POR ALGUNS ANOS VOCÊ FEZ PARTE DA EQUIPE DE CULTURA DA FUNDAÇÃO CULTURAL NILO PEREIRA, NA GESTÃO PASSSADA. GOSTARIA DE SABER SE AO SAIR DELA VOCÊ FICOU COM AQUELA CERTEZA DE MISSÃO CUMPRIDA OU CARREGOU CONSIGO ALGUMA FRUSTRAÇÃO?

            Quando nos propomos fazer cultura temos certeza que nunca “cumpriremos a missão”. Serão cumpridas algumas metas, por que a dificuldade é enorme e quando surge uma oportunidade abraçamos e fazemos o possível para realizá-las.

            Fiz parte da equipe técnica da Fundação Nilo Pereira por quatro anos e quando foi possível foram realizados vários projetos significativos para cultura local. Dentre eles destaco o Olheiro das Artes, idealizado pelo professor Bill e que teve uma visibilidade nacional através da parceria com o Canal Futura. Dos projetos acompanhados pelo Canal Futura em todo o Brasil o Olheiro das Artes foi o único que tinha um padrão diferenciado com atividades culturais realizadas dentro de um Mercado Público, inclusive foi destaque no calendário de programação do Canal distribuído em todo o Brasil. Através dessa parceria foi possível o Canal fazer o documentário com o Mestre Tião dos Congos de Guerra que concorreu ao XIX Prêmio Internacional de Curtas de São Paulo em 2006. O Canal Futura fez a seleção em todo Brasil escolhendo, entre centenas de pessoas, apenas 16 personagens populares para o Programa Toda Beleza e o Mestre Tião foi escolhido entre eles, inclusive ganhou um painel com sua fotografia na galeria da Fundação Roberto Marinho no Rio de Janeiro. O programa é exibido diariamente para milhões de espectadores em todo o mundo. Só isso bastava para ter a “Missão Cumprida”.

            Outro projeto que destaco, particularmente, foi a publicação do meu livro Ceará-Mirim Memória Iconográfica. Ele foi editado pela prefeitura sendo incluído dentro da programação do sesquicentenário de Ceará-Mirim e a atitude da prefeita Edinólia em publicá-lo foi uma grande contribuição para a preservação e fortalecimento da memória de nossa cidade.

            Há sempre uma frustração quando não atingimos completamente as metas que traçamos objetivando uma programação futura. Faz parte do sistema, no entanto, devemos encará-las como desafios para nos fortalecer em busca de atividades mais elaboradas e sistematizadas onde aprenderemos a conviver e tirar delas (das frustrações) o melhor ensinamento que pudermos.

 05. LEITOR - NO ANO PASSADO A PREMIAÇÃO DO CONCURSO DE POESIA ADELE DE OLIVEIRA NÃO SE REALIZOU. É SABIDO QUE O NÚMERO DE PARTICIPANTES FOI MÍNIMO. SABEMOS TAMBÉM QUE EM NOSSA CIDADE EXISTEM GRANDES POETAS VIVOS, COM TRABALHOS QUE SÓ NOS ENCHEM DE ORGULHO. NA SUA OPINIÃO, O QUE ACONTECEU PARA CAUSAR O (QUASE?) INSUCESSO DESSE CONCURSO?  

            É difícil fazer uma avaliação a respeito da falta de inscritos no concurso literário Adele de Oliveira. Em anos anteriores o número de participantes também vinha diminuindo. Penso que uma das causas foi a incerteza de que o concurso ia ser realizado. Outro ponto foi a falta de divulgação e, também, da participação efetiva das escolas em relação aos alunos. Algumas escolas nem chegaram a inscrevê-los, principalmente as da rede pública municipal de ensino.  Para que um evento dessa natureza tenha êxito é necessário que todas as secretarias envolvidas estejam em sincronia para não haver falhas. Talvez a efervescência do momento político também tenha contribuído para que o prêmio Adele de Oliveira não se realizasse. Foi lamentável porque rompeu um ciclo de 15 anos.

            É importante que o Prêmio tenha continuidade e que os participantes acreditem na sua realização. É através do concurso que nossos valores literários têm visibilidade, nossos grandes poetas se mostram e nos presenteiam com lindas poesias. Nossos alunos precisam lutar por esse espaço que foi conquistado com tanta luta. Nós, educadores, não podemos deixar de incentivá-los a produzirem poesias e concorrerem, de forma salutar, para mostrarem que é possível fazer cultura em nosso torrão.

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06. LEITOR ELIEL FERREIRA – MESES ANTES DO POETA AMARILDO FALECER, ESTIVE COM ELE NA CLÍNICA DE FISIOTERAPIA, ONDE ELE FAZIA TRATAMENTO. CONVERSANDO, PERCEBI SUA INSATISFAÇÃO COM A REALIDADE DA CULTURA LOCAL NAQUELE PERÍODO. ORA, ELE SEMPRE ESCREVEU EXCELENTES POESIAS, MESMO ASSIM NÃO CONSEGUIU PUBLICAR O SEU LIVRO. POR OUTRO LADO, CONHECENDO AQUELE SEU LADO MEIO ARREDIO, TALVEZ ISSO TENHA DIFICULTADO ALGUM CONTATO NESSE SENTIDO, UMA VEZ QUE ELE VIVEU MOMENTOS BEM MAIS PRÓSPEROS COM RELAÇÃO AO INCENTIVO CULTURAL POR AQUI. O QUE VOCÊ DIRIA SOBRE ISSO?

            Realmente é lamentável Amarildo não ter publicado seus trabalhos. Ele era uma pessoa muito reservada e não é do meu conhecimento que tenha procurado ajuda para publicar suas produções. Eu o provoquei várias vezes para organizar as poesias e ele sempre desconversava e dizia que estava preparando o material. Parece que ele não tinha isso como meta principal em sua vida. Acho que era uma forma de protestar contra aquilo que não concordava. Assim era seu comportamento e tínhamos que respeitá-lo. Ele partiu e sua obra permanece viva. Buscarei apoio para tornar sua obra pública através de um livro, assim, as poesias do poeta ficarão registradas.

 07. LEITOR – PROFESSOR GIBSON, VOCÊ COMO PROFUNDO CONHECEDOR E INCENTIVADOR DA CULTURA LOCAL O QUE ACHA DA IDÉIA DA PUBLICAÇÃO DE UMA COLETÂNEA COM ALGUNS TRABALHOS DOS NOSSOS POETAS QUE ATÉ ENTÃO VIVEM NO ANONIMATO, POIS NUNCA TIVERAM OPORTUNIDADE DE PUBLICÁ-LOS, SABE-SE QUE EXISTE UM METERIAL MUITO BOM ENGAVETADO. QUAL SERIA O CAMINHO E OS PROCEDIMENTOS PARA SE CHEGAR A ESSE SONHO? E VOCÊ COM A EXPERIÊNCIA QUE TEM NÃO PODERIA SER O NOSSO EMBAIXADOR NESSE PROJETO?

            Em novembro de 2008 fiz um orçamento para um livro de poesias com 200 páginas e uma tiragem de 500 exemplares. Em seguida fiz contato com alguns poetas para tentarmos editar uma antologia em que juntaríamos 10 poetas e cada um publicaria 20 trabalhos. Algumas pessoas se interessaram, mas não me procuraram para iniciar o processo de digitação e diagramação do material.

            Espero que possamos retomar esse projeto uma vez que temos tantos poetas esperando por uma oportunidade. É preciso acreditar que é possível, mas se não corrermos atrás de nossos objetivos eles não ficarão esperando serem alcançados. Vou propor novamente uma reunião com nossos bardos menestréis para levarmos adiante nosso projeto e desde já quem se interessar entre em contato comigo para podermos conversar a respeito.

08. LEITOR – A NOSSA CIDADE É MUITO CARENTE EM PESSOAS QUE REALMENTE SE PREOCUPEM COM A CULTURA DE CEARÁ-MIRIM.  QUEM VOCÊ APONTARIA COMO OUTRO ESTUDIOSO DE NOSSA CULTURA?

            Muitas pessoas estudam a história de Ceará-Mirim. São estudiosos que estão fazendo suas pesquisas muito antes de meu interesse pelo assunto, como professor Claudio Junior, professor Assis, professor Gerinaldo Moura, Professor Bill, Franklin Marinho, Manoel Ubiratan e muitos colegas que terminaram os cursos de história e turismo e fizeram pesquisas a respeito de nossa cidade como professor Sergio, professora Dayane da Luz, Elicarla, prof. Laercio, prof. Wellington, profa. Tatiane, Ana Neri, Karol Ramalho e tantos outros. Recentemente conheci alguns alunos do curso de história da UVA e percebi que surgiriam muitos pesquisadores de nossa história e só temos a agradecer o esforço e dedicação de alunos como Francisco, Esteferson, Junior e tantos outros que têm se esforçado para contribuir com o conhecimento de nossa terra.

            Há algum tempo venho conversando com amigos para criarmos uma espécie de Centro de Estudos no qual reuniríamos periodicamente todas as pessoas que têm interesse na história de Ceará-Mirim. É preciso ter coragem e determinação para iniciarmos esses encontros.

 

09. LEITOR – VOCÊ GOSTARIA QUE O ESTUDO DA CULTURA CEARAMIRINENSE ESTIVESSE CONTIDO NA GRADE CURRICULAR DO NOSSO MUNICÍPIO?

            É louvável o projeto do vereador Julio Cesar sobre o estudo de História e Geografia nas escolas municipais. É claro que se houvesse a possibilidade de nossos alunos estudarem cultura de Ceará-Mirim como disciplina seria uma conquista muito grande. No entanto, cabe aos professores direcionarem os conteúdos de modo que contemplem a cultura junto aos conteúdos de História e Geografia e que haja capacitação dos professores.

 

10. BLOG – FAÇA UMA AVALIAÇÃO DO GOVERNO PEIXOTO.

            São seis meses de administração e não é tempo suficiente para fazer uma análise de gestão. A organização administrativa não pode parar em função do passado, é preciso continuar produzindo, dando encaminhamentos aos projetos não concluídos e as novas propostas que, certamente foram programadas pela equipe do prefeito.

            O período eleitoral passou e é preciso cumprir as promessas de campanha priorizando as melhoras que Ceará-Mirim espera. As responsabilidades confiadas ao prefeito são enormes e difíceis e, provavelmente, ele deverá honrar todas elas, afinal, é o principal responsável pelas ações de governo. Ele é o timoneiro do “Bahia” e, somente ele, pode delinear seu destino!!!

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